Para encontrar o Natal

O título parece estranho, pois desde outubro já há sinais da festa natalina em locais diversos: vitrinas e casas enfeitadas, árvores iluminadas em centros comerciais, guloseimas próprias da época. Embriagados por brilhos, sons, pacotes, poderemos passar por dezembro sem nos defrontar com o verdadeiro Natal.

Dois acontecimentos de que me recordo. O primeiro há pouco tempo. Crianças e adolescentes de um bairro periférico subiram ao palco do Polytheama para apresentar em cantos, danças, teatro, os seus dons valorizados. Uma senhora, da mesma aldeia, chorou o tempo inteiro. Questionava-se sobre onde eles estariam se não fossem os cuidados que recebiam no contraturno escolar. Conheço um pouco de sua história, feita de desencontros desde a infância e empurrada para os bares desfeitos de dignidade. O álcool a dominou por décadas até que, na consciência de seus valores, disse sim para ela e não para a aguardente. No momento, enquanto reza, borda uma toalha com ponteiros coloridos que indicam o céu e se questiona sobre o que seria dela se não fosse Deus.

O segundo faz alguns anos. A moça veio para a Pastoral da Mulher com a esperança que encobria suas cicatrizes tantas. Na infância, abusada pelo pai e, jovenzinha, fugiu do companheiro que a espancava. Para sobreviver, acabou caindo nas malhas da prostituição. Fortalecida, na Pastoral, em poucas semanas, conseguiu um emprego de margarida. Deixou de imediato o comércio do corpo e se orgulhava em manejar a vassoura e empurrar a lixeira nas ruas. Quatro meses após, as dores no abdômen aumentaram. Tumor maligno com metástase. Chorava pela filha e pelo desejo de retornar em sua função na firma de limpeza. Na véspera de Natal, com a doença em avanço, o médico a liberou do hospital para passar com os seus: a mãe e a filha. Habitava em um barraco no vale da cidade vizinha. Na chegada, olhou ao redor e disse que, se Jesus nascesse ali, por certo os pastores desceriam pela encosta em que havia árvores com flores e levariam um buquê delas para Nossa Senhora. Ela se disporia a limpar a gruta. Naquele momento, senti-me em Belém, pois ali se encontrava uma mulher que descobrira, dentro dela, a estrela que levou os reis ao Salvador.

Que seria de nós se o Menino não tivesse vindo? Encontrar o Natal é deparar-se com Ele. É tempo de preparação para acolher o Menino, Maria e José.

Maria Cristina Castilho de Andrade

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