CHEIA DE VIDA

A moça, embora a morte a rondasse desde o ventre materno devido ao vírus, escolheu para a filha o nome que significa “cheia de vida”.

Conheci a mãe da moça na década de 80. Vi-a deitada na praça, atrás da Catedral, com os olhos fixos no infinito. Era noite estrelada. Convidei-a para que viesse conosco às reuniões da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena. Entre a lucidez e os devaneios, me disse que naquele momento não era possível, pois buscava uma estrela. Pouco depois, se apresentou espontaneamente e a sua história entrou em nossa história. Trouxe parte da família também. Sua família se fez parte da nossa.

A filha, da jovem da estrela, nasceu adoentada. O diagnóstico dela indicou a enfermidade da mãe. Sofreu nos tratamentos tantos. Era raro vê-la sorrir. O golpe maior, contudo, foi o da partida materna nos seus seis anos. Por mais que a tia que a assumiu, de braços com luta e alma abençoada, se esforçasse, rompera-se o colo que era dela, o de sua gestação. Os conflitos íntimos da adolescência a fizeram sair de casa e, na maioridade, após a entidade de acolhimento, com pessoas com o mesmo problema que o dela, entendeu-se com um morador de rua e chegou, com ele, à capital de um estado da Região Nordeste. O misticismo, o clima, o mar, a brisa, a poesia do povo lhe fizeram bem. Há três anos, concebeu a filha a quem desejou vida em plenitude. Assim aconteceu: a garotinha nasceu sem a doença da mãe. Pela falta de estrutura, não pôde ficar com ela. Visitava-a, plena de ternura, no abrigo, mas não conseguiu a reconstrução necessária e nem quis retornar. Tempo de adoção. A tia-avó se dispôs a assumi-la.  A Magdala providenciou parte da documentação necessária. Voltou com a menina na semana passada.  Escreveu no perfil de seu Whatsapp com foto do abrigo: “Daqui para frente só vão ficar as lembranças ruins e as boas. As ruins porque não é fácil para uma criança viver num abrigo sem família e as boas porque Deus cuida e coloca gente boa pra cuidar”. Pronta para embarcar, com a sobrinha-neta no banco ao lado, colocou: “Missão cumprida, meu Deus! Vamos pra casa, Princesa! Que Deus nos acompanhe!”

Creio que lá do alto do Céu, porque Deus é misericórdia, a moça da década de 80, ilumina, com a estrela que aguardava, o caminho da irmã tão fiel, da filha que ainda não se encontrou e da pequena “Cheia de Vida”.

Maria Cristina Castilho de Andrade

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