Sobre o Luto

Penso na incapacidade de traduzir o luto em palavras. É um punhado de angústia, ansiedade, falta, saudade, recordações, silêncios… Tudo misturado. Sensação de crepúsculo.  Como escreveu o poeta santista Vicente de Carvalho (1866-1924) em Sugestões do Crepúsculo: “Ao pôr do sol, pela tristeza/ Da meia luz crepuscular,/ Tem a toada de uma reza/ A voz do mar./ (…) Do céu sem sol e sem estrelas/ Tudo amortece, e a tudo invade/ Uma fadiga, um desconforto…”

Cada um vive o seu segundo o convívio com quem partiu e com sua maneira de ser.  Não se nega, no entanto, que é ele uma experiência de dor e seus dias podem se prolongar para uma vida inteira. Superá-lo não significa término, mas sim um sentir de uma maneira mais leve em que as lembranças bonitas se sobrepõem ao impacto da despedida.

Interessante notar, neste período, que continuo enlutada com a partida do papai há quase 34 anos, porém o sofrimento se transformou em versos de ternura.

Conversava com o Padre Márcio Felipe, cura da Catedral NSD, sobre a dificuldade menor, sem vazios, no vivenciar o luto em plenitude, como o que estou passando com a separação da mamãe. Ele tem sido de paciência ímpar em me ouvir e me ajudar a ver, todos os acontecimentos, com os olhos no Céu. Propôs-me que escrevesse sobre o tema.

O luto com vazios diz respeito a remorsos, lamentos por isto ou aquilo. É proveniente de rachaduras na família, no trato, sem perspectiva humana de conserto. Produz negação e solidão interna.

Recordo-me da moça que chorava, desesperada, diante do corpo do pai. O relacionamento foi péssimo. Houve

até assédio sexual na embriaguez dele. Ela, no entanto, sonhava que um dia lhe pedisse perdão e estabelecessem amizade de pai e filha. Comoveu-me tanto!

Vem-me o Evangelho de São Marcos (1, 29-39) do 5º. domingo do Tempo Comum, em que Jesus, após se aproximar da sogra de Pedro que estava com febre, segurou na sua mão e ajudou-a a levantar-se. A febre desapareceu e ela começou a servi-los. O próprio Padre Márcio comentou, em sua homilia, que Jesus Cristo pode vencer dentro de nós a febre da descrença, da tristeza, do desânimo, dos desarranjos…

 O Senhor também é capaz, se alguém vive em arrependimento, em pesares no seu luto, de estabelecer o perdão entre o Céu e a terra, entre a terra e o Céu. E é essencial, desde já, contra o risco de crateras que sangram, viver na perspectiva da renúncia pelo outro e na proximidade que salva.

Maria Cristina Castilho de Andrade

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