OLHAR EM DIREÇÃO AO CÉU

Escrevia esta crônica a respeito da visita do Papa Francisco à planície de Ur e sobre São José, cuja festa se celebra em 19 de março, quando soube que o jovem, de 26 anos, que conheci menino, fora executado, por facção contrária, com três tiros, em cidade de outro Estado onde reside há pouco mais de uma década. Que doloroso! A família de coração dilacerado. Que impotência diante da brutalidade. A avó me disse que, por diversas vezes, ele tentou deixar o crime – tráfico -, mas o crime não o deixou. Tão real essa colocação dela.

Como afirma Dom Geraldo Gonzalez OSB, “Toda vida importa e cada vida é sagrada. Vida e dor devem ser acolhidas e respeitadas”.

Na época dos Movimentos de Jovens, dos quais participei, uma das músicas que me tocava muito era: “Sai da tua terra e vai onde te mostrarei. / Abraão é uma loucura se tu partes/ Abandona a tua casa, o que esperas encontrar? / A estrada é sempre a mesma/ Mas a gente diferente te é inimiga/ onde esperas de chegar? / O que tu deixas já bem conheces/ Mas o teu Deus o que te dá?”

Em seis de março, quando o Papa Francisco se encontrava na planície de Ur, terra de Abraão, onde Deus falou com ele pela primeira vez, comentou que não podemos perder de vista o céu, se queremos salvaguardar a fraternidade. Disse ele: “Nossa função primeira é esta: ajudar os nossos irmãos a elevarem o olhar em direção ao Céu. (…) E disto todos precisamos, porque não nos bastamos a nós próprios. O homem não é onipotente; sozinho não é capaz. E se escorraça Deus, acaba por adorar coisas terrenas”.

Nos conflitos, não somente das facções, as pessoas são vistas como descartáveis. Ao se tornarem inúteis, adversas, desvantajosas, são destinadas às valas.

Ao falar sobre as partidas, com olhos no céu, vem-me o amado São José; José de Maria e de Jesus, o homem do silêncio e do sim obediente ao plano de Deus. Conforme escreveu o Padre Jerônimo Gasques em seu livro “São José o Lírio de Deus”, é ele o homem do caminho. Despertou do sono e fez como o anjo do Senhor havia ordenado: acolheu Maria como esposa. Não perdeu tempo, confiou na palavra do anjo e o seu temor se transformou em um sereno colocar-se à disposição de Deus. Era homem de olhar no Céu. Em sua docilidade divina, vai a Belém, ao Egito e retorna a Nazaré.

No livro “O Caminho da Fé de São José” do Cardeal Anastácio Ballestrero, traduzido pelas Monjas Carmelitas Descalças de Jundiaí, o autor reflete, a partir de São José, que ser chamado por Deus é ser colocado no desígnio da salvação, com o propósito de que sejamos beneficiados e colaboradores. Não sejamos apenas salvos, mas salvadores.  Sobre sua docilidade, que “vivamos continuamente a experiência do êxodo (…) a fim de caminharmos para Deus. São José deixou-se conduzir pelo Senhor, por estradas misteriosas. Renunciou a compreender e aceitou acreditar…”

Para aonde segue a humanidade com tantos conflitos, insensibilidade, falta de discernimento? Vê-se, por exemplo, neste tempo, quando está difícil conscientizar as pessoas sobre os riscos de carregarem o vírus da Covid-19 e, além de ficarem doentes, o transmitirem a outros indivíduos.

Continuo com a música citada: “Partir não é tudo, certamente/ Há quem parte e nada dá, busca só sua liberdade. / Partir, mas com a fé no teu Senhor, / Com amor aberto a todos leva ao mundo a salvação…”

Ainda na planície de Ur, o Papa declarou: “Quem tem a coragem de olhar as estrelas, quem acredita em Deus, não tem inimigos para combater. Tem apenas um inimigo a enfrentar, que está à porta do coração e insiste para entrar: é a inimizade. E na Missa em Bagdá, na Catedral Caldeia de São José, enfatizou: “A paciência de recomeçar sempre é a primeira qualidade do amor, porque o amor não se indigna, mas sempre recomeça”.

São José recomeçou no Egito e em Nazaré.

Por todos aqueles que se encontram em ameaça da ferocidade dos violentos, exercitemos, como exemplo, a docilidade de São José e realizemos o que mencionou o Papa Francisco em Ur: ajudar as pessoas, independente de suas crenças, a elevar os olhos para o Céu.

Maria Cristina Castilho de Andrade
É professora e cronista

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