Online para o inferno

Conectados o tempo todo, iremos, conectados, para o inferno.

Nossa presença online, nossa vida digital, nossos terços e orações – online, obviamente – nossas esperanças… ao alcance do toque dos dedos, no smartphone ou no teclado do computador, ou do tablet, ou até na antiga tela da TV. As missas, os encontros comunitários, as pregações, os cultos inflamados, a reunião dos irmãos, a convivência cristã: tudo real, tudo online, a realidade virtual!

Que se use e abuse das tais redes sociais, dos meios digitais moderníssimos para “conectar” as pessoas em suas mais diversas realidades, louvemos a tecnologia. Que saibamos lidar com essas ferramentas, bem que seja. Que as utilizemos para – como diz o lema jesuíta – para a maior glória de Deus, façamo-lo com coragem e esperança. Num mundo hostil e isolacionista, tentemos, todavia, a tal “conexão” entre os seguidores de Cristo.

Mas, de fato, temos nos dado conta do imenso perigo de tudo isso? Porque, em última análise, o cristianismo é uma AÇÃO, uma movimentação de amor em direção ao outro. E, para amar, é preciso tocar, tocar com as mãos! Não existe amor virtual. Não existe conexão verdadeira numa distância maior do que o alcance de um abraço. Não se ama o que não se conhece: sem olho no olho, sem toque, um aperto de mão, um abraço, as mãos na cabeça…não se ordena um padre sem a imposição das mãos: o toque do bispo é mandatório. Sem o toque, sem o amor.

Era patente nas epístolas paulinas o imenso pesar que ele sentia ao não poder estar com os irmãos. Escrevia as tais cartas com dor no coração. Mas ele mesmo nos exortava a acolher de bom grado a viva tradição, o que nos foi dito de viva voz pelos apóstolos e pelo que se seguiu ao longo dos séculos, por meio de uma palavra viva e eficaz, proferidas ao pé do ouvido de milhões de homens e mulheres. A fé vem por ouvir, nos garante. A Escritura é o registro de boa parte do que é a fé, mas não se encerra aí. O contato, a convivência, o estar junto à beira do fogo ou na mesa da refeição, eis a forma como se transmite a fé, pelo contato humano, pelo chorar com os que choram e por se alegrar com os que se alegram. É possível chorar online, mas não é a mesma coisa. Como se faz possível abraçar alguém virtualmente? Muitos acham que isso exista. É lamentável, mas é comum ouvirmos: sintam-se abraçados, queridos irmãos…

A tal “comunhão espiritual” que poderia ter sido autorizada como um sucedâneo, como um subterfugio urgente e temporário, acaba por tornar-se o padrão em tantos lugares. As missas, que tanto esperneavam os tais grupos tradicionalistas, para que se convertessem os padres e os bispos e que enfrentassem o status quo... continuam, quase sempre, com pouquíssimas pessoas, por medo da pandemia, ou por medo de sair de seus pecados.

Também se vai para o inferno pelas vias digitais. Conectar-se ao império do egoísmo é fácil como um clique na tela do celular. O engano é tão grande, que em mais alguns meses mergulhados nessa loucura de celebrações virtuais, nem mais saberemos o que é real de verdade.

Prudência, não covardia. A ousadia do Evangelho. O romper com o comodismo. O luxo de assistir um sacrifício da morte de Cristo por nossos pecados do sofá da sala, de shorts e camiseta, comendo um tira-gosto…ou se ficar ligado nas tais “lives” indigestas, com a câmera desligada, é claro! Sem calor humano, sem toque, num autoengano diabólico e nefasto.

A saída para uma situação tão complexa será obviamente complexa. Mas Jesus ia, pessoalmente, ao encontro de todos. Tocava o leproso, impunha as mãos, falava a curta distância, olhava, beijava, sorria, estendia a mão. Podemos fazer isso online? Pois somos chamados a fazer o que Cristo fez: não se pode ser cristão virtualmente.

O inimigo, sem esforço, assiste, presencialmente, a tudo isso! Porque, para ele, não tem essa de tentação virtual: ele as faz presencialmente, sentado em nossos ombros. Usa da conexão virtual para nos enganar, para fingir que comungamos, para fingir que amamos, que damos atenção ao outro. No mesmo celular que usamos para fofocar, para ver pornografia, para fornicar, adulterar, fazer gracinhas. No mesmo computador cheio de filmes obscenos, lotado de fotos ainda mais obscenas, o diabo nos engana, materialmente, porque ele não é bobo, não acredita em nada virtual.

Robinson Daniel dos Santos

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